Memória Humana: Definição, Atributos e Classificação
Memória Humana: Definição, Atributos e Classificação
1. Definição
A memória humana é a capacidade do sistema nervoso de codificar, armazenar e recuperar informação e de aplicar a experiência passada à modificação do pensamento e do comportamento presentes. A codificação converte o estímulo em uma representação interna. O armazenamento mantém a representação ao longo do tempo. A recuperação reativa a representação quando a tarefa a exige.
Atkinson e Shiffrin [1968] descrevem a memória como sistema composto de armazenamentos e de processos de controle que regulam o trânsito da informação entre os armazenamentos. Squire [2004] trata a memória como um conjunto de múltiplos sistemas, com princípios operacionais e substratos cerebrais distintos, em vez de uma faculdade única. A memória sustenta a aprendizagem, a tomada de decisão e o funcionamento cotidiano.
2. Critérios de Classificação
A classificação segue dois critérios. O critério temporal ordena os tipos conforme o trânsito da informação: memória sensorial, memória de curto prazo, memória de trabalho, memória de longo prazo [ATKINSON; SHIFFRIN, 1968]. O critério de acesso consciente subdivide a memória de longo prazo em explícita, também chamada declarativa, e implícita, também chamada não declarativa [SQUIRE, 2004]. A exposição adota a ordem de trânsito da informação, pois cada tipo posterior recebe do tipo anterior o conteúdo que este processa.
A memória sensorial retém a impressão bruta do estímulo por uma fração de segundo. A memória de curto prazo retém informações por segundos. A memória de trabalho mantém e manipula a informação em uso. A memória de longo prazo armazena informações por dias e anos e divide-se em memória episódica, memória semântica, memória procedural, priming e condicionamento clássico simples.
A Figura 1 representa o trânsito da informação, e a Tabela 1 compara os tipos lado a lado. As seções 3 a 5 detalham cada tipo.

Figura 1. Trânsito da Informação e Classificação da Memória de Longo Prazo. A caixa de borda espessa indica o armazenamento central do modelo, que recebe a informação do registro sensorial, transfere-a para o armazenamento de longo prazo e a recupera desse armazenamento [ATKINSON; SHIFFRIN, 1968]. Subdivisão da memória de longo prazo segundo Tulving [1972] e Squire [2004].
Tabela 1. Tipos de Memória Humana
Tipo | Definição | Duração | Capacidade | Exemplo | Fonte |
|---|---|---|---|---|---|
Sensorial | Retenção da impressão bruta do estímulo | Fração de segundo a cerca de 4 segundos | Superior ao relato integral, na visão e na audição | Imagem visual após olhar uma cena | Sperling [1960]; Darwin et al. [1972] |
Curto prazo | Retenção temporária, entre o registro sensorial e o longo prazo | Segundos | Cerca de 7 [Miller, 1956]; cerca de 4 [Cowan, 2001] | Número de telefone lembrado até a discagem | Atkinson e Shiffrin [1968] |
Trabalho | Sistema que mantém e manipula informação em tarefas cognitivas | Segundos | Limitada; valor controverso | Cálculo mental de uma soma | Baddeley e Hitch [1974]; Baddeley [2000] |
Longo prazo | Armazenamento duradouro | Dias a anos | Limite máximo sem fixação nas fontes | Lembrança da formatura | Atkinson e Shiffrin [1968] |
Explícita: episódica | Eventos situados no tempo e no espaço | Aniversários, viagens | Tulving [1972] | ||
Explícita: semântica | Fatos e conhecimento geral | Capitais de países, regras de gramática | Tulving [1972] | ||
Implícita: procedural | Habilidades e hábitos | Andar de bicicleta, nadar | Squire [2004] | ||
Implícita: priming | Facilitação do processamento por exposição anterior | Reconhecimento mais rápido de palavra vista antes | Squire [2004] | ||
Implícita: condicionamento simples | Respostas emocionais e musculares condicionadas | Medo aprendido diante de estímulo associado a evento aversivo | Squire [2004] |
3. Memória Sensorial
A memória sensorial retém a impressão bruta do estímulo por um período de frações de segundo a poucos segundos, com um volume de informação superior ao que o sujeito consegue relatar. Sperling [1960] expôs matrizes de letras por 50 milissegundos e demonstrou que, logo após o desaparecimento do estímulo, o observador dispunha de mais informação do que o relato integral, de cerca de quatro a cinco itens, indicava. O experimento comparou o relato integral com o relato parcial [partial report], no qual um sinal indica qual parte da matriz o sujeito deve relatar.
3.1 Memória Icônica
A memória icônica corresponde à modalidade visual. Neisser [1967] cunhou o termo para o armazenamento que Sperling estudou. A literatura de revisão estima a persistência entre 0,25 e 2 segundos [ICONIC MEMORY, s.d.].
3.2 Memória Ecoica
A memória ecoica corresponde à modalidade auditiva. Darwin, Turvey e Crowder [1972] adaptaram o relato parcial de Sperling a três sequências faladas, apresentadas por canais espaciais distintos, e observaram vantagem do relato parcial sobre o integral quando o sinal ocorria em menos de quatro segundos após o estímulo.
3.3 Memória Háptica
A memória háptica corresponde ao tato. Bliss e colaboradores [1966] aplicaram estímulos táteis às falanges dos dedos e observaram uma amplitude imediata de 3,5 a 7,5 posições corretas. O relato parcial superou o integral quando o marcador ocorria em até 0,8 segundos após o estímulo. Os autores concluíram que a memória tátil, para o treino empregado, tem capacidade inferior à da memória visual análoga.
Tabela 2. Subtipos da Memória Sensorial
Subtipo | Modalidade | Persistência documentada | Capacidade documentada | Fonte |
|---|---|---|---|---|
Icônica | Visão | 0,25 a 2 segundos | Superior ao relato integral de cerca de 4,5 itens | Sperling [1960]; Iconic Memory [s.d.] |
Ecoica | Audição | Até cerca de 4 segundos | Vantagem do relato parcial com sinal em menos de 4 segundos | Darwin, Turvey e Crowder [1972] |
Háptica | Tato | Vantagem do relato parcial até 0,8 segundo | Inferior à visual; amplitude imediata de 3,5 a 7,5 posições | Bliss et al. [1966] |
4. Memória de Curto Prazo e Memória de Trabalho
Os dois termos designam construtos distintos. Atkinson e Shiffrin [1968] descrevem o armazenamento de curto prazo como um estágio de retenção temporária, intermediário entre o registro sensorial e o armazenamento de longo prazo. Baddeley e Hitch [1974] substituíram o armazenamento passivo pelo sistema de trabalho, que mantém e manipula informações durante tarefas como o raciocínio e a compreensão. O sistema compõe-se de quatro componentes:
[1] o executivo central, que controla a atenção e coordena os subsistemas;
[2] a alça fonológica [phonological loop], que processa e mantém informação verbal e acústica;
[3] o esboço visuoespacial [visuospatial sketchpad], que processa e mantém informação visual e espacial;
[4] o buffer episódico [episodic buffer], que Baddeley [2000] acrescentou ao modelo para integrar informação da alça fonológica, do esboço visuoespacial e da memória de longo prazo em representações unitárias.
Miller [1956] resumiu evidência de que o sujeito retém cerca de sete unidades, mais ou menos duas, em tarefas de memória imediata. Cowan [2001] qualifica o número sete como estimativa aproximada e recurso retórico, e propõe, a partir de ampla evidência, limite real de cerca de quatro unidades. O próprio Cowan registra que o limite da memória de curto prazo permanece controverso.
5. Memória de Longo Prazo
A memória de longo prazo armazena informações por períodos que variam de dias a anos. As fontes consultadas nesta sessão não fixam o limite máximo de capacidade. A subdivisão segue o critério de acesso consciente.
5.1 Memória Explícita ou Declarativa
A memória declarativa opera por meio de recuperação consciente. Tulving [1972] distinguiu duas formas:
[a] a memória episódica, que armazena eventos situados no tempo e no espaço, como a formatura de um sujeito;
[b] a memória semântica, que armazena fatos e conhecimento geral desligados da circunstância de aquisição, como a capital de um país.
5.2 Memória Implícita ou Não Declarativa
A memória não declarativa manifesta-se no desempenho, sem exigir conteúdo consciente de recordação [SQUIRE, 2009]. A taxonomia de Squire [2004] reúne quatro formas: habilidades e hábitos, também chamados de memória procedural; priming; condicionamento clássico simples; aprendizagem não associativa.
A memória procedural abrange habilidades motoras e cognitivas executadas sem recuperação consciente, como andar de bicicleta ou tocar um instrumento. O priming refere-se à facilitação do processamento de um estímulo decorrente de uma exposição prévia. O condicionamento clássico simples abrange, na descrição de Squire, respostas emocionais e musculares.
5.3 Posição da Memória Emocional
A literatura consultada omite "memória emocional" como categoria própria da memória não declarativa. As respostas emocionais condicionadas, como o medo aprendido diante de um estímulo associado a um evento aversivo, integram o condicionamento clássico simples na taxonomia de Squire [2004]. A amígdala, além de sustentar o aprendizado emocional, modula a força tanto da memória declarativa quanto da não declarativa [SQUIRE, 2009]. A expressão "memória emocional" designa, portanto, dois fenômenos: o condicionamento emocional, de natureza não declarativa, e a modulação emocional de memórias de qualquer tipo. O texto adota a designação "respostas emocionais condicionadas" para o primeiro fenômeno.
6. Em Linguagem Simples
A memória funciona em três andares. No primeiro, o cérebro guarda a imagem, o som ou o toque por instantes, como o rastro luminoso que permanece após um flash. No segundo, o cérebro mantém poucas informações em uso, como o número de telefone repetido até o momento de discar. O segundo andar equivale a uma bancada de trabalho: cabe pouco sobre a bancada, e o que sai dela some, salvo se o sujeito repetir ou guardar. No terceiro, o cérebro arquiva o que permanece por dias e anos. O arquivo tem duas alas. Na ala das lembranças que o sujeito consegue contar, ficam os episódios da vida e os fatos aprendidos. Na ala das lembranças que o sujeito executa sem contar, ficam as habilidades, como pedalar, e as reações aprendidas, como o susto diante de algo que já causou dano.
7. FAQ: Perguntas Frequentes
Memória de curto prazo e memória de trabalho são sinônimos?
Os termos designam construtos distintos. O primeiro descreve o estágio de retenção temporária no modelo de Atkinson e Shiffrin [1968]. O segundo descreve um sistema que mantém e manipula informação, com quatro componentes, no modelo de Baddeley e Hitch [1974] e de Baddeley [2000].
A capacidade da memória de curto prazo é de sete itens?
Miller [1956] propôs sete unidades, mais ou menos duas. Cowan [2001] qualifica o número como uma estimativa aproximada e propõe cerca de quatro unidades. A literatura mantém o limite em discussão.
A memória emocional constitui tipo próprio de memória?
A taxonomia de Squire [2004] enquadra as respostas emocionais condicionadas no condicionamento clássico simples, no âmbito da memória não declarativa. A influência da emoção sobre as memórias declarativas constitui um fenômeno de modulação pela amígdala [SQUIRE, 2009].
A memória sensorial integra a memória de curto prazo?
Os modelos tratam a memória sensorial como um registro anterior. Sperling [1960] demonstrou que a informação visual disponível logo após a exposição excede o que o sujeito relata, e que a informação decai em fração de segundo.
8. Conclusão
A classificação da memória humana combina o critério do trânsito temporal, que distingue a memória sensorial, a de curto prazo e a de longo prazo, com o critério do acesso consciente, que divide a memória de longo prazo em declarativa e não declarativa. A memória de trabalho, na formulação de Baddeley, substitui o armazenamento passivo de curto prazo por um sistema de quatro componentes. Os valores de duração e de capacidade variam conforme a modalidade, o método e o modelo adotado, e o texto declara os valores sem verificação.
Glossário de Termos
Alça fonológica. Componente da memória de trabalho que processa e mantém informações verbais e acústicas [BADDELEY; HITCH, 1974].
Buffer episódico. Componente da memória de trabalho que integra informações da alça fonológica, do esboço visuoespacial e da memória de longo prazo [BADDELEY, 2000].
Chunk. Unidade de informação, formada pelo agrupamento de itens, contada na capacidade da memória imediata [MILLER, 1956].
Condicionamento clássico simples. Forma de memória não declarativa que abrange respostas emocionais e musculares condicionadas [SQUIRE, 2004].
Esboço visuoespacial. Componente da memória de trabalho que processa e mantém informações visuais e espaciais [BADDELEY; HITCH, 1974].
Executivo central. Componente da memória de trabalho que controla a atenção e coordena os subsistemas [BADDELEY; HITCH, 1974].
Memória de curto prazo. Estágio de retenção temporária entre o registro sensorial e o armazenamento de longo prazo [ATKINSON; SHIFFRIN, 1968].
Memória de trabalho. Sistema que mantém e manipula informações durante tarefas cognitivas [BADDELEY; HITCH, 1974].
Memória declarativa. Memória de recuperação consciente, que compreende as formas episódica e semântica [TULVING, 1972].
Memória ecoica. Registro sensorial auditivo [DARWIN; TURVEY; CROWDER, 1972].
Memória episódica. Memória de eventos situados no tempo e no espaço [TULVING, 1972].
Memória háptica. Registro sensorial tátil [BLISS et al., 1966].
Memória icônica. Registro sensorial visual [NEISSER, 1967].
Memória não declarativa. Memória manifestada no desempenho, sem exigir recordação consciente [SQUIRE, 2009].
Memória procedural. Memória de habilidades e hábitos [SQUIRE, 2004].
Memória semântica. Memória de fatos e conhecimento geral [TULVING, 1972].
Priming. Facilitação do processamento de um estímulo pela exposição prévia [SQUIRE, 2004].
Relato parcial. Procedimento em que um sinal indica ao sujeito qual parte do material apresentado ele deve relatar [SPERLING, 1960].
Referências Bibliográficas
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BADDELEY, Alan D. The episodic buffer: a new component of working memory? Trends in Cognitive Sciences, v. 4, n. 11, p. 417-423, 2000.
BADDELEY, Alan D.; HITCH, Graham. Working memory. In: BOWER, Gordon H. [ed.]. The Psychology of Learning and Motivation, v. 8. New York: Academic Press, 1974, p. 47-89.
BLISS, James C.; CRANE, Hewitt D.; MANSFIELD, Phyllis K.; TOWNSEND, James T. Information available in brief tactile presentations. Perception & Psychophysics, v. 1, n. 4, 1966. DOI 10.3758/BF03207391.
COWAN, Nelson. The magical number 4 in short-term memory: a reconsideration of mental storage capacity. Behavioral and Brain Sciences, v. 24, n. 1, p. 87-114, 2001.
DARWIN, Christopher J.; TURVEY, Michael T.; CROWDER, Robert G. An auditory analogue of the Sperling partial report procedure: evidence for brief auditory storage. Cognitive Psychology, v. 3, n. 2, p. 255-267, 1972.
ICONIC memory. ScienceDirect Topics, [s.d.]. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/topics/agricultural-and-biological-sciences/iconic-memory. Acesso em: 27 set. 2026.
MILLER, George A. The magical number seven, plus or minus two: some limits on our capacity for processing information. Psychological Review, v. 63, n. 2, p. 81-97, 1956.
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SPERLING, George. The information available in brief visual presentations. Psychological Monographs: General and Applied, v. 74, n. 11, Whole No. 498, p. 1-29, 1960.
SQUIRE, Larry R. Memory systems of the brain: a brief history and current perspective. Neurobiology of Learning and Memory, v. 82, p. 171-177, 2004.
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TULVING, Endel. Episodic and semantic memory. In: TULVING, Endel; DONALDSON, Wayne [ed.]. Organization of Memory. New York: Academic Press, 1972, p. 381-403.
