O Connected Papers completou seis anos de operação pública em junho de 2026 como um dos instrumentos mais citados de mapeamento visual de literatura científica, num momento em que o Conselho Nacional de Justiça já regula, pela Resolução nº 615/2025, o uso de sistemas automatizados de apoio à decisão e à pesquisa dentro do Poder Judiciário.
O que é?
Connected Papers é uma ferramenta de visualização de literatura acadêmica em formato de grafo, acessada pelo navegador, sem necessidade de instalação. Foi criada por Eddie Smolyansky, Alex e Itay e lançada publicamente em junho de 2020, após período de testagem fechada. A ferramenta opera sobre o corpus do Semantic Scholar, base bibliográfica mantida pelo Allen Institute for AI (Ai2), que hoje indexa cerca de 214 milhões de registros de todas as áreas do conhecimento científico. O acesso básico é gratuito, com limite de cinco grafos novos por mês; há planos pagos (Academic, voltado a pesquisadores de instituições acadêmicas, entidades sem fins lucrativos e uso pessoal; e Business, para uso em contexto comercial), ambos com geração ilimitada de grafos; não há, nas fontes consultadas para este texto, tabela de preços publicamente confirmada, e o valor exato de cada plano não é aqui afirmado. Connected Papers não é buscador de texto integral, não lê nem resume o conteúdo dos artigos e não é sistema de recomendação editorial: é instrumento de descoberta bibliométrica, construído sobre padrão de citação, não sobre análise semântica do conteúdo.
Para que serve?
A ferramenta serve para dar ao pesquisador uma visão panorâmica de um campo a partir de um único artigo de entrada, e para compor bibliografia de teses, dissertações, artigos e fundamentações técnicas a partir de referências centrais já conhecidas.
Obter panorama de um campo novo ou pouco familiar a partir de um artigo-semente, sem depender de lista curada manualmente.
Identificar os artigos estruturantes de uma área de produção intensa (caso típico do aprendizado de máquina), reduzindo o esforço de triagem manual entre milhares de publicações.
Construir revisão de literatura para tese, dissertação ou artigo, expandindo referências centrais em duas direções: para trás, aos trabalhos que fundamentaram o artigo de origem (Prior Works); e para a frente, aos que dele derivaram, incluindo o estado da arte mais recente (Derivative Works).
Comparar campos ou correntes de pesquisa relacionadas por meio de grafos com múltiplas origens (multi-origin graphs).
Como funciona?
A partir de um artigo de entrada, o algoritmo varre um universo de até cerca de cinquenta mil artigos candidatos extraídos da vizinhança bibliográfica desse artigo e seleciona algumas dezenas com as conexões mais fortes para montar o grafo. A força de conexão entre dois artigos é calculada por dois critérios estruturais: co-citação (artigos frequentemente citados em conjunto por terceiros) e acoplamento bibliográfico (artigos que compartilham grande parte de suas próprias referências), sob a premissa de que forte sobreposição de citações indica maior proximidade temática. No grafo resultante, cada nó é um artigo; o tamanho do nó cresce com o volume de citações recebidas; a cor indica o ano de publicação, mais escura quanto mais recente. Duas listas complementam o grafo: Prior Works, com os trabalhos ancestrais mais influentes; e Derivative Works, com os descendentes mais relevantes, inclusive revisões e artigos de fronteira. A ferramenta integra-se a gerenciadores de referência (Zotero, Mendeley, EndNote, Paperpile) para exportação direta. É preciso registrar dois limites conhecidos: a similaridade calculada é estrutural, de padrão de citação, não semântica de conteúdo, de modo que o grafo pode aproximar artigos citados em conjunto por razões distintas da tese sustentada pelo pesquisador; e a cobertura do grafo é a cobertura do corpus do Semantic Scholar, desigual entre áreas, idiomas e países, o que pode subrrepresentar produção não indexada nessa base, inclusive parte da produção jurídica brasileira em revistas não cobertas pelo Semantic Scholar.
Como aplicar na prática do Direito Penal e Processo Penal?
Connected Papers não produz prova, não substitui perícia e não é sistema de inteligência artificial generativa: não redige texto nem interpreta fatos do caso. Sua aplicação penal e processual penal ocorre em dois planos distintos, que não devem ser confundidos.
No primeiro plano, a ferramenta pode subsidiar a apreciação crítica de prova pericial que envolva método científico ou técnico controvertido (reconhecimento facial, extração forense de dispositivo, análise de DNA por método não convencional, entre outros), ao permitir mapear, a partir do artigo em que o método foi originalmente descrito, se esse método tem lastro consolidado na literatura (trabalhos derivados numerosos e recentes) ou se permanece isolado ou contestado. O Código de Processo Civil, aplicável ao processo penal por integração analógica nos termos do art. 3º do Código de Processo Penal, exige do laudo pericial a indicação expressa do método utilizado:
Código de Processo Civil (Lei nº 13.105/2015), art. 473, III. O laudo pericial deverá conter [...] a indicação do método utilizado, esclarecendo-o e demonstrando ser predominantemente aceito pelos especialistas da área do conhecimento da qual se originou.
O mapeamento de citações não substitui a análise de mérito do método (não é certificação de validade científica, apenas indício estrutural de circulação e uso na literatura), mas pode servir de ponto de partida para o juiz, a acusação ou a defesa verificarem se a afirmação pericial de aceitação predominante corresponde a padrão de citação real ou é meramente alegada no laudo, o que dialoga com o dever de motivação da livre apreciação da prova em contraditório judicial fixado pelo art. 155 do Código de Processo Penal, incluído pela Lei nº 11.690/2008.
Código de Processo Penal (Decreto-Lei nº 3.689/1941), art. 155, caput, com redação da Lei nº 11.690/2008. O juiz formará sua convicção pela livre apreciação da prova produzida em contraditório judicial, não podendo fundamentar sua decisão exclusivamente nos elementos informativos colhidos na investigação, ressalvadas as provas cautelares, não repetíveis e antecipadas.
No segundo plano, de uso mais direto no cotidiano do magistrado, do membro do Ministério Público, do defensor e do professor de direito, a ferramenta apoia a pesquisa doutrinária e a construção de fundamentação de votos, decisões, pareceres e produção acadêmica. Esse uso, quando promovido a título pessoal, não está sujeito à disciplina da Resolução CNJ nº 615/2025; torna-se relevante à luz dessa resolução na medida em que o Judiciário institucionalize o uso de ferramentas automatizadas de apoio à pesquisa em seus fluxos de trabalho, hipótese em que incidem os deveres de supervisão humana efetiva (art. 3º, VII), de revisão detalhada do conteúdo e do método empregado pela ferramenta antes de sua utilização em ato processual (art. 32, II) e a vedação a que resultado de ferramenta automatizada seja tomado como instrumento autônomo de decisão sem interpretação e verificação humanas (art. 19, § 2º, II). Há incerteza classificatória que deve ser sinalizada, não resolvida por presunção: a Resolução define sistema de inteligência artificial em termos amplos, como sistema baseado em máquina que processa dados para gerar resultados prováveis e coerentes (art. 4º, I), definição que comporta leitura tanto no sentido de abranger ferramentas de ranqueamento algorítmico de literatura quanto no sentido de restringir-se a sistemas generativos ou preditivos de conteúdo decisório; não há, até a data deste texto, orientação do CNJ que resolva expressamente essa dúvida para ferramentas de mapeamento bibliométrico.
Em qualquer dos dois planos, cabe registrar que Connected Papers não trata dado pessoal de partes do processo (opera sobre metadados de publicações científicas), de modo que a incidência da Lei Geral de Proteção de Dados (Lei nº 13.709/2018) é, em regra, residual, limitada a dados de conta de uso institucional.
Em termos simples
Connected Papers funciona como um mapa de linhas de metrô construído em torno de uma estação escolhida pelo usuário: mostra quais estações vieram antes, alimentando aquela linha, e quais vieram depois, prolongando-a, sem descrever o que acontece dentro de cada estação. Cabe ao pesquisador entrar em cada artigo indicado e ler o conteúdo; o mapa só orienta o trajeto, não substitui a leitura.
POP: Procedimento Operacional Padrão
Nível 1: Operação básica
Acessar connectedpapers.com pelo navegador; criar conta gratuita para salvar grafos e obter o limite mensal de geração.
Inserir o artigo de origem por título, DOI ou link do Semantic Scholar, arXiv ou PubMed.
Aguardar a geração do grafo, resultado da varredura dos candidatos e da seleção das conexões mais fortes.
Explorar os nós do grafo: tamanho indica volume de citações; cor indica ano de publicação; clicar em cada nó abre os metadados e o link para o artigo original.
Consultar as listas Prior Works e Derivative Works para a relação curada de trabalhos ancestrais e descendentes.
Adicionar origens adicionais (multi-origin graph) quando a pesquisa cruzar mais de um artigo central.
Exportar os artigos de interesse para o gerenciador de referências utilizado (Zotero, Mendeley, EndNote ou Paperpile).
Repetir a exploração a partir de um novo artigo-semente para expandir a revisão em camadas sucessivas.
Nível 2: Uso no Processo Penal
Connected Papers não coleta vestígio material nem produz prova, de modo que a cadeia de custódia dos arts. 158-A a 158-F do Código de Processo Penal, própria de vestígio físico ou digital de crime, não incide diretamente sobre seu uso. O que se exige, em seu lugar, é rastreabilidade metodológica da pesquisa bibliográfica quando ela fundamentar ato decisório, laudo ou peça processual.
Registrar, antes da busca, qual artigo será utilizado como semente e por que ele foi escolhido; a escolha do artigo de origem determina todo o grafo subsequente.
Gerar o grafo e registrar a data da consulta: o corpus do Semantic Scholar é atualizado continuamente, e o mesmo artigo-semente pode produzir grafos distintos em datas diferentes.
Exportar ou capturar o grafo obtido, preservando-o em anexo à decisão, ao laudo ou ao parecer, para viabilizar reprodução posterior e contraditório sobre a pesquisa realizada.
Conferir, artigo por artigo, o conteúdo efetivo de cada referência relevante antes de citá-la; a posição no grafo indica proximidade estrutural de citação e não corrobora nem refuta, por si só, a tese sustentada.
Documentar expressamente, no ato que se apoiar na pesquisa, que a busca de literatura foi mediada por ferramenta algorítmica, com indicação do escopo e do limite de cobertura do corpus consultado.
Submeter a metodologia de pesquisa ao contraditório da parte contrária ou à crítica técnica da perícia sempre que o resultado da busca sustentar fundamentação decisória relevante, em atenção ao art. 155 do Código de Processo Penal e ao art. 473, III, do Código de Processo Civil.
Registrar os pontos de risco identificados: cobertura parcial e desigual do corpus por área, idioma e país; possível sub-representação de produção jurídica brasileira; ausência de certificação de validade científica pela mera posição do artigo no grafo; e, quando o uso for institucional pelo Judiciário, os deveres de transparência e revisão humana da Resolução CNJ nº 615/2025.
Glossário
Co-citação: relação entre dois artigos que são citados em conjunto, com frequência relevante, por um terceiro artigo; quanto maior a frequência, maior a proximidade temática presumida entre os dois primeiros.
Acoplamento bibliográfico: relação entre dois artigos que compartilham grande parte de suas próprias referências bibliográficas, usada como indício estrutural de proximidade temática.
Corpus (Semantic Scholar): conjunto de registros bibliográficos indexados pela base Semantic Scholar, mantida pelo Allen Institute for AI, hoje com cerca de 214 milhões de itens de todas as áreas científicas.
Grafo de citações: representação visual de artigos (nós) e das relações de proximidade calculadas entre eles (arestas), usada para mapear a estrutura de um campo de pesquisa a partir de um artigo de origem.
Trabalhos anteriores (Prior Works): lista curada dos artigos ancestrais mais influentes sobre o artigo de origem, no grafo do Connected Papers.
Trabalhos derivados (Derivative Works): lista curada dos artigos que se apoiam no artigo de origem, incluindo revisões e produção de fronteira mais recente.
PRISMA 2020: protocolo internacional de relato de revisões sistemáticas e metanálises, que exige busca documentada, reprodutível e em múltiplas bases; ferramentas de mapeamento bibliométrico isoladas não atendem, por si só, a esse padrão.
Fontes
Connected Papers, Medium: anúncio de lançamento público, junho de 2020
Connected Papers, Medium: anúncio dos planos Premium e dos grafos multi-origem
Semantic Scholar (página de produto, Allen Institute for AI)
CASRAI: guia sobre uso do Connected Papers em revisões sistemáticas e aderência ao PRISMA 2020
Lei nº 13.105/2015 (Código de Processo Civil), art. 473, Planalto
Lei nº 11.690/2008, nova redação ao art. 155 do Código de Processo Penal, Planalto
Decreto-Lei nº 3.689/1941 (Código de Processo Penal), art. 3º, Planalto
