O Que Sobra Quando o Árbitro Vira as Costas
O Que Sobra Quando o Árbitro Vira as Costas
Cumprir a regra é o mínimo, e o mínimo ainda não é jogo limpo.
Imagine um zagueiro que, aos 44 minutos do segundo tempo, vê o árbitro virar as costas. O atacante corre ao lado, a camisa ao alcance da mão. Ninguém olha. O que impede o zagueiro de puxá-la?
Há duas respostas possíveis. Na primeira, ele não puxa porque teme a câmera, o bandeirinha, o cartão. Temos aí um bom cálculo, não um bom caráter. Na segunda, ele não puxa porque puxar seria trapacear, e ele não se vê como alguém que trapaceia. Só a segunda resposta merece o nome de fair play.
Explico. A UNESCO descreve o fair play como um princípio que valoriza a justiça, o respeito e a integridade em ambientes competitivos e desencoraja a trapaça [leia o verbete]. Até aqui, nada de espantoso. O espantoso está na Recomendação do Conselho da Europa de 2010, que trata o fair play como algo bem maior do que jogar dentro das regras. O texto inclui nele a amizade, o respeito pelos outros, o espírito esportivo, e diz que a ética esportiva é uma maneira de pensar. Pensar, note-se, antes de se comportar. (Confesso que li a frase, da primeira vez, como quem lê enfeite de documento diplomático. Achei que fosse floreio. Não é.)
Por que isso importa? Porque a regra tem um defeito de nascença: alcança apenas o que o legislador do jogo previu. O regulamento descreve a falta, não o desejo de faltar. Quem joga limpo porque a regra o obriga joga limpo até o dia em que descobre o ponto cego da regra. E todo jogo tem um ponto cego.
Aristóteles dizia que nos tornamos justos praticando atos justos. A virtude seria hábito antes de ser doutrina. Se vale para a cidade, vale para o gramado: ninguém aprende o jogo limpo lendo o regulamento. Aprende devolvendo a bola quando o adversário cai com cãibra, mesmo que ninguém exija a devolução. Por isso mesmo ela vale.
Note-se o que cada um faz. A regra diz o que não se pode fazer. O fair play trata do que se faz quando se pode. A primeira organiza a competição; a segunda organiza o competidor.
Objeção de leitor: “Mas trapaça que ninguém vê continua sendo trapaça. Basta um árbitro melhor”. Concordo em parte. Um árbitro melhor reduz o ponto cego, não o elimina. Pior: ensina o zagueiro a calcular melhor. Quanto mais fina a fiscalização, mais o jogador aprende a medir o risco. O resultado é um esporte limpo na superfície e contábil no fundo. Que maravilha.
A dopagem, que a UNESCO liga ao tema, ilustra o mesmo desenho. O exame antidoping é regra com laboratório. O atleta que recusa a substância quando o laboratório está longe é outra coisa, e é dele que o fair play trata.
Voltemos ao zagueiro. Suponha que o árbitro se vire de novo, e que desta vez a camisa do atacante fique a um palmo. Se a mão não sobe, o motivo não consta de regulamento algum. Consta de uma ideia que o zagueiro faz de si mesmo.
A regra termina onde o árbitro para de olhar. O jogo limpo começa nesse ponto exato. O artigo não é sobre futebol. É sobre processo penal.
